A força transformadora dos cavalos 

Na Hípica Damha, o som dos cascos se mistura ao riso das crianças. Em meio à natureza e ao cuidado com os cavalos, um projeto vem transformando a infância de dezenas de pequenos — especialmente aqueles que mais precisam de acolhimento, estímulo e confiança. A equitação lúdica, mais do que uma técnica, é um encontro entre mundos: o da criança e o do cavalo, o da superação e o do afeto.  Nesta entrevista, conversamos com Paula, aluna na Hípica Damha e responsável pelo projeto Crescendo a Cavalo. Com paixão e sensibilidade, ela nos conta sobre os impactos físicos, emocionais e sociais da equitação lúdica, os vínculos criados com os animais e as histórias reais de transformação que ela presencia todos os dias.  Paula, para começar, conta um pouco sobre você e sua ligação com a Hípica Damha.  Claro! Atualmente sou aluna de hipismo clássico e tenho a alegria de ser a proprietária de um cavalo maravilhoso, o Conquest Cooper. Ele trouxe muita alegria para minha vida e fortaleceu ainda mais meu vínculo com esse universo. Aqui na Hípica, sou professora de Equitação Lúdica no projeto Crescendo a Cavalo, voltado para crianças de 2 anos e meio até 6 anos. Meu trabalho é apresentar esse animal magnífico às crianças, ensinando sobre seus hábitos, comportamento e cuidados. Também introduzo técnicas da equitação de base, sempre respeitando o ritmo e a idade de cada criança.  E como nasceu o projeto de equitação lúdica na hípica Damha? Qual foi a motivação?  O projeto surgiu da necessidade de proporcionar às crianças um primeiro contato com o cavalo de forma segura, lúdica e educativa. Queríamos um ambiente que facilitasse o vínculo afetivo entre elas e os cavalos. E, ao mesmo tempo, que ensinasse a montar com equilíbrio, respeitando o estágio motor de cada idade. Com o tempo, vimos o impacto não só no aprendizado, mas também no desenvolvimento emocional e físico das crianças. Foi aí que a equitação lúdica se fortaleceu como parte essencial do que oferecemos.  Hoje, quantas crianças participam do projeto? E como é o perfil delas?  Atualmente, temos cerca de 60 crianças participando das atividades de Equitação Lúdica e Equoterapia. São crianças com diferentes perfis – algumas com necessidades especiais, outras em busca de desenvolvimento motor ou emocional. Mas o que todas têm em comum é o encantamento com o cavalo e a vontade de aprender.  Para quem nunca ouviu falar, como você explicaria o que é a Equitação Lúdica?  A equitação lúdica é uma abordagem terapêutica que utiliza o cavalo como agente facilitador do desenvolvimento físico, psicológico e social. Diferente de uma aula de equitação comum, ela tem objetivos terapêuticos muito claros e definidos conforme a necessidade de cada praticante.  E quem são os profissionais envolvidos nesse processo?  É essencial que o profissional tenha formação em equitação fundamental e saiba montar. Além disso, trabalhamos em conjunto com fisioterapeutas, psicólogos, pedagogos e outros profissionais de saúde e educação, dependendo do caso de cada criança. É um trabalho multidisciplinar, onde cada um contribui para o progresso do aluno.  E o cavalo… ele tem um papel muito especial, né? O que ele desperta nas crianças?  Ah, o cavalo é incrível nesse processo! Ele é um animal grande, imponente, mas ao mesmo tempo extremamente dócil. Isso desperta na criança um sentimento de segurança e confiança. Além disso, ele proporciona ganhos físicos como equilíbrio, força, melhora da postura e coordenação. Emocionalmente, vemos um despertar de coragem, determinação e alegria. A conexão entre a criança e o cavalo é profunda e transformadora.  Paula, você se lembra de alguma história marcante de uma criança que tenha passado por uma grande transformação?  Lembro sim. Vou chamá-la de Marina, para preservar sua identidade. Quando ela chegou, há cerca de um ano, vinha de uma experiência anterior de montaria dupla, comum na região onde morava, no sul do país. Montar sozinha foi um desafio imenso para ela. No início, eu precisava segurar sua perninha e até abraçá-la com a mão para que se sentisse segura. Mas, com o tempo, ela foi ganhando confiança. Hoje, aos cinco anos, conduz o cavalo sozinha, faz todo o percurso e já está até trotando. Foi um progresso gigantesco em tão pouco tempo.  E como os pais reagem ao ver esse progresso?  É muito bonito de ver. Alguns pais chegam achando que será apenas um passeio. Mas ao assistirem as aulas, percebem o quanto seus filhos precisam desenvolver – força, equilíbrio, confiança. E quando percebem esses avanços acontecendo, se emocionam. Eles começam a valorizar ainda mais o processo.  E tem algum momento que ficou marcado no seu coração?  Muitos! Mas tem um que me emociona só de lembrar. Uma aluninha de apenas 3 anos e meio, depois de completar todo o percurso com equilíbrio e até saltar três varas no chão, parou o cavalo sozinha, do jeitinho que ensinamos, e disse com um sorriso radiante: “EU AMO SALTAR!” Foi espontâneo, genuíno… me fez rir e me encheu de alegria. Momentos assim são recompensas diárias nesse trabalho.  Como você vê o papel da equitação lúdica na formação de crianças em situação de vulnerabilidade ou com necessidades especiais?  Vejo como uma ferramenta poderosa de transformação. A equitação lúdica não é apenas uma atividade física, mas um caminho para o fortalecimento emocional, o desenvolvimento social e o aumento da autoestima. Crianças que, muitas vezes, enfrentam desafios difíceis, encontram aqui um lugar de acolhimento, respeito e superação.  E o que ainda falta para ampliar o alcance desse projeto na região?  Acredito que o principal desafio é o apoio. Ainda há pouca visibilidade e incentivo público. Também buscamos mais parcerias e patrocínios, que permitam expandir o atendimento e democratizar o acesso à equitação. O potencial é enorme, mas precisamos de estrutura e apoio para alcançar mais famílias.  E quais são os sonhos para o futuro?  Queremos crescer! Ampliar o espaço, ter mais cavalos treinados para a equitação, formar mais profissionais. Sonho em ver mais crianças sendo impactadas por esse projeto. Queremos também criar eventos e campanhas que mostrem à sociedade o